Quando Noé entrou na arca?

O grande pensador e líder Jesus de Nazaré (hoje muito reverenciado nas lojas maçônicas do grau 32.º do rito escocês antigo e aceito, onde tem uma estátua, na sua qualidade de «redentor» social) falou extensamente acerca da Bíblia e apresentou o argumento de que não existe contradição entre a passagem de Gênesis 7:7:10 e a passagem de Gênesis 7:11-13, passagens que tratam do tema das entradas de Noé na arca que Noé construiu. Não existe contradição porque, argumenta Jesus, essas passagens são ambas verdadeiras (João 17:17 e Lucas 24:44, 45). Onde só há verdades, não há contradições.

Com efeito, sabe-se o que é uma contradição. É um objeto lógico que se verifica sempre que se mostram reunidas todas as seguintes condições: (a) existe pelo menos um caso em que o predicado é afirmado e, simultaneamente, (b) existe pelo menos um caso em que o mesmo predicado é negado e, (c) em ambos os casos, os espaços em branco da estrutura da relação designada pelo predicado são preenchidos na mesma ordem exatamente pelas mesmas entidades. Por exemplo, tome-se o predicado «entrou», e seja ele abreviado pela letra «E». Sejam a, b, c, d, as constantes que abreviam nomes de objetos, lato sensu. Então, a frase Eabcd e a frase não-Eabcd são uma contradição. Em linguagem corrente, a frase «No dia 20 de Janeiro de 2013, Barack Obama entrou na Casa Branca pela primeira vez depois de ter prestado o juramento do segundo mandato» e a frase «No dia 20 de Janeiro de 2013, Barack Obama não entrou na Casa Branca pela primeira vez depois de ter prestado o juramento do segundo mandato» constituem uma contradição.

Certo é que o argumento de Jesus de Nazaré, de que as passagens de Gênesis 7:7-10 e Gênesis 7:11-13 não se contradizem, vem sendo desafiado, com grande estrondo. Não é o caso de alguém ter alguma vez demonstrado que existe contradição. Uma demonstração desse género não existe. O que tem havido é a mera afirmação dogmática de que essas passagens são contraditórias. Os pregadores do dogma de que a Bíblia tem contradições são numerosos. Entre os mais ferrenhos deles contam-se The Skeptic’s Annotated Bible e Bíblia do Cético Comentada, para quem, entre muitos alegados casos, a Bíblia apresenta a seguinte contradição: «Quando Noé entrou na arca? Sete dias antes da inundação. [Gn 7:7-10] No mesmo dia em que começou a inundação. [Gn 7:11-13]», (in Bíblia do Cético Comentada).

Os textos em disputa são os seguintes:

Gênesis 7:7-10: «Assim, antes de virem as águas do dilúvio, Noé entrou na arca com seus filhos, sua esposa e as esposas dos seus filhos. 8 De cada animal puro, de cada animal impuro, das criaturas voadoras e de tudo o que se move sobre o solo, 9 os pares foram a Noé dentro da arca, macho e fêmea, assim como Deus havia ordenado a Noé. 10 E sete dias depois vieram as águas do dilúvio sobre a terra.»

Gênesis 7:11-13: «11 No seiscentésimo ano da vida de Noé, no segundo mês, no dia 17 do mês, nesse dia rebentaram todos os mananciais das vastas águas profundas e abriram-se as comportas dos céus. 12 E a chuva caiu sobre a terra por 40 dias e 40 noites. 13 Nesse mesmo dia, Noé entrou na arca junto com seus filhos, Sem, Cã e Jafé, e com sua esposa e as esposas dos seus três filhos.»

É razoável pensarmos que, antes do dilúvio, durante os 50 ou 60 anos que Noé levou a construir a arca, Noé entrou na arca e saiu dela centenas ou milhares de vezes.

Consideremos, no entanto, o predicado «entrou», ocorrido nos textos acima citados. Ele aí exprime uma relação com a seguinte estrutura lógica de quatro lugares: em _1_, _2_ entrou em _3_ pela vez _4_.

Abordemos primeiramente o texto de Gênesis 7:7-10. Quanto a ele, a Bíblia preenche os quatro lugares vazios da estrutura lógica «em _1_, _2_ entrou em _3_ pela vez _4_» da seguinte maneira:

  1. No dia 10 do 2.º mês do ano de 2370 AEC, Noé entrou na arca, pela vez enésima anterior à última vez em que Noé entrou na arca antes do dilúvio.

Observe-se bem quais são as quatro entidades ou objetos que apropriadamente preenchem a estrutura lógica da relação designada pelo predicado «entrou» ocorrido nos textos de Gênesis 7:7-10. Tais entidades estão acima designadas por expressões com letra escrita em cheio. É fácil ver que, partindo da direita para a esquerda, o primeiro lugar vazio da estrutura é ocupado pelo dia 10 do 2.º mês do ano de 2370 AEC. Vamos designar este dia por a. A data é esta, uma vez que «sete dias depois» veio a ser o «dia 17 do mês» do mesmo mês e do mesmo ano (Gênesis 7: 10, 11). O segundo lugar vazio é preenchido pela pessoa de Noé. No nosso esquema lógico, vamos designar Noé por b. O terceiro lugar vazio da estrutura é ocupado pela arca que Noé construiu antes do dilúvio. Vamos chamar este objeto c. O quarto lugar vazio é ocupado por todo o x tal que x é uma entrada de Noé na arca,  x ocorre no dia 10 de do 2.º mês do ano de 2370 AEC, e x ocorre numa posição anterior à última entrada de Noé na arca antes do dilúvio. É «anterior à última», uma vez que a última vez que Noé entrou na arca antes do dilúvio foi no dia 17, altura em que «Jeová fechou a porta» (Gênesis 7:16). Por outro lado, não são incluídas as entradas e saídas de Noé depois do dilúvio. Noé passou dentro da arca 370 dias ou partes de 371 dias diferentes. Saiu no dia 27 do 2.º mês do ano de 2371 AEC (Gênesis 8:13-18). É razoável pensar-se que, depois do dilúvio Noé também entrou várias vezes na arca, para tirar dela os muitos animais e as muitas coisas, incluindo alimentos para os próximos tempos, que lá tinha armazenado.

Em Gênesis 7:7-10, a relação entrou é representa pelo seguinte conjunto:

E = {<a, b, c, x>}

Por conseguinte a primeira frase que Jesus de Nazaré considerou no seu argumento foi a seguinte: Eabcx

Abordemos agora o texto de Gênesis 7:11-13. Quanto a ele, a Bíblia preenche os quatro lugares vazios da estrutura lógica «em _1_, _2_ entrou em _3_ pela vez _4_» da seguinte maneira:

  1. No dia 17 do 2.º mês do ano de 2370 AEC, Noé entrou na arca, pela vez última antes do dilúvio.

Note-se bem quais são as quatro entidades ou objetos que apropriadamente preenchem a estrutura lógica da relação designada pelo predicado «entrou» ocorrido nos textos de Gênesis 7:11-13. Tais entidades estão acima designadas por expressões com letra escrita em cheio. É fácil ver que, partindo da direita para a esquerda, o primeiro lugar vazio da estrutura é ocupado pelo dia 17 do 2.º mês do ano de 2370 AEC. Vamos designar este dia pela constante por d. A data é esta, uma vez que «sete dias depois» veio a ser o «dia 17 do mês» (Gênesis 7: 10, 11). O segundo lugar vazio é preenchido pela pessoa de Noé. No nosso esquema lógico, vamos designar Noé pela constante b. O terceiro lugar vazio da estrutura é ocupado pela arca que Noé construiu antes do dilúvio. Vamos designar este objeto pela constante c. O quarto lugar vazio é ocupado pelo objeto único que satisfaz a propriedade de ser a última entrada de Noé na arca antes do dilúvio. Vamos designar esse objeto único pela constante e.

Assim, em Gênesis 7:11-13, a relação entrou é representa pelo seguinte conjunto:

E = {<d, b, c, e>}

Consequentemente, a segunda frase que Jesus de Nazaré considerou no seu argumento foi a seguinte: Edbce

Para afirmarem a existência de contradição, os oponentes de Jesus de Nazaré, The Skeptic’s Annotated Bible e Bíblia do Cético Comentada, procederam à manobra da substituição das duas frases do argumento de Jesus de Nazaré – que são as frases Eabcx e Edbce – pelas frases Eabc e Edbc. Por conseguinte, substituíram também o tópico ou tema de Jesus de Nazaré que, no primeiro caso, é um y tal que y é uma entrada, y é na arca de Noé, y é de Noé, y ocorreu no dia 10 do 2.º mês do ano de 2370 AEC e y não é a última vez em que Noé entrou na arca antes do dilúvio. No segundo caso, o tópico de Jesus de Nazaré é um z tal que z é uma entrada, z é na arca de Noé, z é de Noé, z ocorreu no dia 17 do 2.º mês do ano de 2370 AEC e z é a última vez em que Noé entrou na arca antes do dilúvio. Com esta manobra de substituição, The Skeptic’s Annotated Bible e Bíblia do Cético Comentada incorrem na falácia do espantalho e o seu argumento, contra o argumento de Jesus de Nazaré, não tem qualquer validade nem credibilidade, tão forte é a violação das leis da lógica e da razão.

Curiosamente, as duas frases apresentadas por The Skeptic’s Annotated Bible e pela Bíblia do Cético Comentada – as frases Eabc e Edbc – também não são contraditórias. Com efeito, se há contradição, o predicado está negado. O caso é que o predicado não está negado. Logo, não há contradição. Se há contradição, o predicado está negado e o predicado está aplicado aos mesmos objetos: O caso é que o predicado não está aplicado aos mesmos objetos. Logo, também por esta via, não há contradição. Isto coloca a questão de saber se os oponentes ao argumento de Jesus de Nazaré sabem realmente de que é que estão falando.

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