O que é uma contradição?

Quando se pretende discutir o tema das contradições da Bíblia, tem de se saber do que se está falando. Em primeiro lugar, tem de se saber o que é a Bíblia. Em segundo lugar, tem de se saber o que é uma contradição. Sem ter estes «mínimos», ninguém conseguirá produzir argumentos sólidos e válidos sobre a matéria. Na página anterior deste site, já respondemos à pergunta «o que é a Bíblia?». Cumpre agora fixarmos o conceito de contradição.

«Para começar, duas frases dizem-se contraditórias se uma é a negação da outra; uma contradição é a conjunção de duas frases contraditórias, ou seja, é uma conjunção da forma S & -S». (Patrick Suppes, Introduction to Logic, p. 37). Mais analiticamente, uma contradição é uma entidade lógica que apenas existe se e só se estão preenchidas as seguintes condições: (1) existem duas frases; (2) as duas frases possuem o mesmo predicado; (3) o predicado está afirmado numa frase e está negado na outra; (4) o número de lugares da relação designada pelo predicado afirmado é o mesmo da relação designada pelo predicado negado; (5) os objetos que preenchem os lugares da relação designada pelo predicado afirmado são os mesmos da relação designada pelo predicado negado; (6) a ordem pela qual os objetos preenchem os lugares da relação designada pelo predicado afirmado é a mesma pela qual eles preenchem os lugares da relação designada pelo predicado negado.

Suponhamos o predicado «inspirou». Assim, para haver contradição, terá que começar por existir algo com a estrutura que surge em (1) e (2):

(1) Em _1_, _2_ inspirou _3_ a escrever _4_, em _5_, no _6_

(2) Em _1_, _2_ não inspirou _3_, a escrever _4_, em _5_, no _6_

Feita a contagem, esta é uma estrutura de seis lugares. Aí temos um esqueleto de duas frases. O mesmo predicado — «inspirou» — ocorre tanto em (1) como em (2). Além disso, o predicado está afirmado em (1) e está negado em (2). Acresce que a relação designada pelo predicado afirmado em (1) tem o mesmo número de lugares que a relação designada pelo predicado negado em (2). Até aqui nenhuma contradição pode existir entre (1) e (2). As frases ainda não estão constituídas ou ainda não estão — como dizem os lógicos — «fechadas». Realmente, só frases «fechadas», por serem aquelas que têm significado, podem ser verdadeiras ou falsas. Suponhamos os objetos a, b, c, d, e e f. Só existe contradição se a estrutura (1) e a estrutura (2) foram preenchidas, por exemplo, desta forma:

(1) Em a, b inspirou c, a escrever d, em e, no f

(2) Em a, b não inspirou c, a escrever d, em e, no f

Ou desta forma:

(1) Em b, a inspirou c, a escrever d, em e, no f

(2) Em b, a não inspirou c, a escrever d, em e, no f

Ou de qualquer outra forma possível em que o mesmo objeto ocupa a mesma posição ou ordem tanto numa como na outra frase.

Façamos o preenchimento das estruturas lógica das frases (1) e (2) com os seguintes itens:

a = 1513 AEC

b = o deus de Abraão

c = Moisés

d = Gênesis.

e = hebraico

f = deserto.

Neste caso, as frases abertas (1) e (2) dão o seguinte resultado:

(1*) Em 1513 AEC, o Deus de Abraão, inspirou Moisés a escrever Gênesis, em hebraico, no deserto.

(2*) Em 1513 AEC, o Deus de Abraão, não inspirou Moisés a escrever Gênesis em hebraico, no deserto.

Qualquer outro arranjo dos objetos no preenchimento dos espaços em branco do nosso esquema não gera contradição. Também qualquer caso em que se elimina a negação — a palavra «não» ou outra que exerça o mesmo papel — não gera contradição. Por exemplo, as frases (1**) e (2**) não são uma contradição.

(1**) Em 1513 AEC, o Deus de Abraão, inspirou Moisés a escrever Gênesis, em hebraico, no deserto.

(2**) Em 1473 AEC, o Deus de Abraão, inspirou Moisés a escrever Gênesis em hebraico, no deserto.

Com efeito, uma não nega a outra, já que ambas podem ser falsas e pode ser verdadeira, por exemplo, a frase (3**):

(3**) Em 1512 AEC, o Deus de Abraão, inspirou Moisés a escrever Gênesis em hebraico, no deserto

Aliás, (3**) também não é contraditória com (1**) nem com (2**).

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