Contradições da Bíblia: a Falácia do Espantalho

Jesus de Nazaré foi o maior filósofo de sempre — «filósofo» no sentido de amigo da sabedoria. Ele usava o método analítico. A sua análise dos textos e declarações compreendia «a menor letra» de cada palavra e mesmo «um só traço de uma letra» que fosse (Mateus 5:18).

Jesus de Nazaré apresentou o argumento de que a Bíblia não tem contradições. De Gênesis a Apocalipse, argumenta ele, a Bíblia só contém verdades (João 17:17; Lucas 24:44, 45; Apocalipse 21:5). Onde só há verdades, não existe contradição alguma. Um dos mais famosos discípulos e amigo pessoal de Jesus de Nazaré, o escritor João Evangelista, registrou o princípio lógico que lhe fora ensinado: «nenhuma mentira se origina da verdade» (1 João 2:21). Deste modo, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão será necessariamente verdadeira.

O argumento de Jesus de Nazaré possui a seguinte estrutura lógica:

__ não tem__

No lugar vazio do lado esquerdo do esquema do seu argumento, Jesus de Nazaré coloca o objeto que consiste na reunião deste conjunto ordenado de palavras da língua hebraica (incluindo alguns trechos em aramaico) com este conjunto ordenado de palavras da língua grega. Este objeto — só este objeto e nada mais do que este objeto — é que é a Bíblia. Vamos designá-lo por objeto a. No lugar vazio do lado direito do esquema do seu argumento Jesus de Nazaré coloca todo o objeto que alguém considere uma contradição. Por exemplo, alguns alegam que existe uma contradição entre a passagem de 2 Samuel 23:8 e a de 1 Crônicas 11:11. Seja c tal objeto. Neste caso, o argumento de Jesus de Nazaré apresenta-se assim:

a não tem c

Observe-se que o objeto a, a Bíblia, tem sido traduzido para muitas outras línguas — para milhares delas, sendo o conjunto de palavras mais traduzido do mundo. Designemos por x uma qualquer das traduções de a. Note-se que a e x são objetos distintos. Por exemplo, todo o x é posterior a a e nenhum x é escrito, nas mesmas passagens, na língua hebraica, aramaica e grega do tempo de a; além disso, a pode existir sem existir x, mas x não pode existir sem existir a, e a é absolutamente independente de x, sendo que nada do que afeta x afeta a. A Bíblia não é um livro em língua latina, em língua inglesa ou em língua portuguesa. Saliente-se que não existe uma Bíblia original e uma Bíblia não original — assim como também não existe um Alcorão original e um Alcorão não original, ou uma Tanakh original e uma Tanakh não original, ou uns Lusíadas originais e uns Lusíadas não originais. O que existe são traduções dessas obras. Registre-se até que há pelo menos uma organização religiosa que traduziu a Bíblia para a língua portuguesa (português do Brasil) e que, em vez de intitular essa obra Bíblia, ou Bíblia Sagrada ou Escrituras Sagradas, intitulou-a, muito honestamente, Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada . É uma tradução. Assim, as pessoas sabem o que têm em mãos. Por conseguinte, alguém que queira demonstrar uma inconsistência ou contradição na Bíblia tem de falar da Bíblia; alguém que queira demonstrar uma inconsistência ou contradição em Os Lusíadas tem de falar de Os Lusíadas. Se falar de uma tradução, o máximo que conseguirá fazer será demonstrar que existe uma contradição nessa tradução.

O argumento de Jesus de Nazaré e da Escola que ele fundou, segundo o qual não existem contradições na Bíblia, tem sido atacado por alguns.

O  site The Skeptic’s Annotated Bible — cuja versão em língua portuguesa é a Bíblia do Cético Comentada  — defende a tese de que a Bíblia tem muitas contradições. Acontece, porém, que The Skeptic’s Annotated Bible não está discutindo o objeto a, a Bíblia, que Jesus de Nazaré considerou no seu argumento. Aquilo que tal site está discutindo é uma coisa completamente diferente: o objeto b, a tradução King James Bible (Versão Rei Jaime). Por conseguinte, este é o argumento de Jesus de Nazaré :

a não tem c

Ao passo que o argumento de The Skeptic’s Annotated Bible é este, muito diferente:

b tem c

O argumento apresentado por Jesus de Nazaré é o mesmo que os seus seguidores hoje defendem. Para conseguir atacar tal argumento, The Skeptic’s Annotated Bible teria de demonstrar o seguinte:

a tem c

E isso não faz.

Por seu turno, também a Bíblia do Cético Comentada  não está discutindo o objeto a, a Bíblia, que Jesus de Nazaré considerou no seu argumento. Está discutindo o objeto d: a tradução denominada Nova Versão Internacional, publicada em 2001, i.e. uns 2.000 anos depois de a existir.

O argumento da Bíblia do Cético Comentada  é este, também muito diferente do de Jesus de Nazaré e do de seus seguidores:

d tem c

Vale a pena realçar que até The Skeptic’s Annotated Bible e a  Bíblia do Cético Comentada estão discutindo coisas diferentes entre si. A primeira está discutindo o objeto b, isto é, a tradução intitulada  King James Bible, publicada em 1611, e a segunda está discutindo o objeto d, ou seja, a tradução intitulada Nova Versão Internacional, publicada em 2001. No entanto, uma contradição pode existir em b e não existir em d ou vice-versa.

Repare-se que tanto The Skeptic’s Annotated Bible  como a Bíblia do Cético Comentada  estão distorcendo o argumento de Jesus de Nazaré e da Escola que ele fundou, para poderem afirmar que a Bíblia tem contradições. Com efeito, onde Jesus de Nazaré e a sua Escola colocam a frase

a não tem c

The Skeptic’s Annotated Bible coloca uma entidade diferente que é esta:

b tem c

Por seu turno, a Bíblia do Cético Comentada  ainda coloca outra frase diferente de todas as outras, a saber:

d tem c

Com esta distorção The Skeptic’s Annotated Bible e a  Bíblia do Cético Comentada alteram o tópico, assunto ou tema da discussão do argumento de Jesus de Nazaré e de sua Escola. Na verdade, o tópico de Jesus de Nazaré e de sua Escola é o das contradições da Bíblia, e o tópico de The Skeptic’s Annotated Bible e da  Bíblia do Cético Comentada é o das contradições de uma tradução da Bíblia, mas fazendo crer que estão discutindo as contradições da Bíblia.

Com esta distorção, The Skeptic’s Annotated Bible e a  Bíblia do Cético Comentada incorrem no vício lógico da falácia do espantalho. «A falácia do espantalho é cometida quando aquele que argumenta distorce o argumento do oponente com o propósito de mais facilmente o atacar, deita abaixo o argumento distorcido, e depois conclui que o real argumento do oponente foi deitado abaixo. Assim procedendo, diz-se que aquele que argumenta constrói um espantalho [homem de palha] e o derruba, apenas para concluir que o homem real (o argumento em oposição) também foi derrubado» (Patrick J. Herley, A Concise Introduction to Logic, 11th edition. International Edition, 2012, p. 129).

A menos que The Skeptic’s Annotated Bible e a  Bíblia do Cético Comentada analisem a própria Bíblia, objeto a (e não uma tradução dela, o objeto b, como fazem) a falácia do espalho permanente. Consequentemente, The Skeptic’s Annotated Bible e a  Bíblia do Cético Comentada não provam nenhuma contradição da Bíblia. Falham completa e absolutamente no seu ataque contra o argumento do grande filósofo Jesus de Nazaré e sua Escola. A argumentação de The Skeptic’s Annotated Bible e da  Bíblia do Cético Comentada é ilógica e fora da razão.